: Escrevo não porque sei, mas por gosto e impulso... E assim escrevo errado mesmo...

(E o conteúdo deste blog que não consta fonte, é de minha autoria...)

quarta-feira, 3 de abril de 2019

O “Canto da Verônica” em Pé de Serra

Ó Homens! Existe dor igual a minha? 

Afinal de quem é/seria a fala "Ó vós que por aqui transitam, olhai e vede se existe dor igual a minha dor..."? Verônica ou Maria? Ou Jesus? 

Segundo a Tradição Católica, Verônica foi uma mulher que ousadamente se aproximou de Jesus durante a sua caminhada para o Calvário, Via Crúcis ou Via Sacra, enxugou seu rosto desfigurado e ensanguentado e pode levar consigo a marca de tal rosto na toalha utilizada nesse gesto de compaixão... Isso não está narrado nos evangelhos, mas a Igreja dedicou a 6ª Estação da Via Sacra a este acontecimento. 

Na quarta feira da semana santa, a Igreja ao relembrar o Encontro entre Jesus e sua Mãe, Maria, a caminho do Calvário, também agregou a esse evento, o momento protagonizado por Verônica, mais o encontro de Jesus com as mulheres piedosas; respectivamente 4ª, 6ª e 8ª estações da Via Sacra, e há ainda a tradição do “Canto da Verônica”. 

Aqui em Pé de Serra, segundo lembra minha mãe, D. Méria, a primeira vez que se ouviu esse canto, foi aproximadamente no ano de 1965, quando ela (mãe) pediu ao então pároco de Riachão do Jacuípe o Padre Osvaldo, para realizar aqui em Pé de Serra as Procissões de Ramos, de Encontro e do Senhor Morto, que até então não eram realizadas. 

A primeira pessoa quem interpretou a Verônica e seu o “Canto” foi Joana Guida, prima de Professora Quitéria. Depois minha mãe ensinou a Solange Rodrigues que continuou cantando e encantando durante muitos anos. Também foi cantado por Da Paz, depois Dom (in memorian), e novamente Solange. 

A versão do canto que usávamos em latim, minha mãe aprendeu em Riachão do Jacuípe com a seguinte letra: “Ó vos omnes, ó vos omnes, qui transitis per viam: Attendite, attendite et videte sit est dolor meun, meun...” ¹ 

A Procissão de Encontro era realizada com as Imagens de Nossa Senhora das Dores e uma de Bom Jesus da Paciência meio que trajada de Nosso Senhor dos Passos. Os únicos personagens ao vivo eram as Beús (Mulheres piedosas – de preto), Verônica, Maria Madalena e São João Evangelista. O momento do Encontro acontecia na esquina do Bar de Madeira, quando as duas procissões paravam uma de frente a outra, as imagens se encontravam, a matraca era tocada, as Beús cantavam e a Verônica subia numa cadeira para do alto, solenemente mostrar a toalha com o rosto de Jesus enquanto entoava seu Canto; as procissões se uniam e seguiam para a Igreja onde a Verônica novamente do alto de uma cadeira cantava pela segunda vez em frente à Igreja; por fim, todos entravam na Igreja, novamente a Verônica cantava, entoava-se o Senhor Deus e concluía-se o momento de oração. Em alguns anos, a Procissão de Encontro tinha a participação de Escolas que levavam uma das imagens. 

Aproximadamente nos anos de 1983 ou 1984, Tony Magno e Da Paz começaram a trazer além das imagens, também ao vivo, Jesus e Maria, bem como começaram a fazer as encenações do Encontro entre Jesus e Maria e a de Verônica enxugando antes o rosto de Jesus para depois cantar, inserindo o Encontro (com a procissão) como parte da encenação da Paixão de Cristo que Tony já fazia; na quinta-feira era encenada a Santa Ceia e na sexta-feira, a Via Sacra ao vivo. 

Paixão de Cristo encenada por Tony Magno
em 1982, em Pé de Serra - Bahia

Em 1993, falho engano, Solange estando sem poder cantar, passou a mim a missão do “Canto da Verônica”. Eu, jovem, nada curiosa, questionadora e ousada já havia feito com ajuda de minha mãe, uma versão do canto em Português (não havia internet ou outra fonte, nem ninguém a não ser minha mãe que soubesse ao menos o que significava aquelas palavras em latim); como se não bastasse a versão, eu insinuei que aquele conteúdo teria maior relação com Maria do que com Verônica, e então coloquei Verônica apenas para enxugar o rosto de Jesus e mostrar a toalha, e vestida de Maria, cantei o “Canto da Verônica” com o seguinte conteúdo: “Ó vós homens, ó vós homens, que por aqui transitam: olhai e vede, olhai e vede, se existe dor igual a minha dor, dor igual a minha dor...” ². 

Se houve protesto ou manifesto, não lembro. Mas o novo costume pegou e já cantaram essa “nova” versão do “Canto de Verônica”, vestidas como Maria, Marta, Ana Laura, Iva Benjamim... 

Também devido a esse novo costume, o Professor Eudes, quando foi convidado a encenar a Paixão de Cristo, criou uma cena da Pietá (Maria recebendo o corpo de Jesus ao pé da cruz) que cantava o “Canto da Verônica” e esse gran finale foi encenado duas vezes sendo que a última protagonizei com Veridiano em 2012 conforme está registrado no vídeo que aqui está. 

... 

O tempo passou e eu fui percebendo meu equívoco: o conteúdo do “Canto da Verônica” não está diretamente relacionado nem a Maria nem a Verônica; está sim, relacionado Àquele quem segundo a tradição deixou a imagem de seu rosto ensanguentado em uma toalha utilizada por uma mulher, e esta mesma mulher também poderia ser sua porta voz perguntando a todos que ali passavam “se existe dor igual a d’Ele?”. 

Ouvi em outros Cantos da Paixão do Senhor uma estrofe com a frase: “Ó vós, ó vós! Vós que por aqui passais, olhai, dizei, quem nesse mundo sofreu mais?”, o que levou-me a refletir e concluir que o texto do “Canto da Verônica” que eu atribuía a Maria na verdade deve ser atribuído ao próprio Jesus, que assim como transfigurou sua face numa toalha, poderia também utilizar-se da voz da mesma mulher que mostrava seu rosto para questionar a sua dor... 

Afinal, quem neste mundo sofreu mais, que o Filho Apaixonado que morreu crucificado? 

... 

Compartilhando ideias, memórias (minhas e de minha mãe), desejo que o leitor e a comunidade católica de Pé de Serra sintam-se á vontade para pensar e agir como quiserem: 

  • Se concluírem que errei, perdoem-me; mas ao menos colaborei com a arte e cultura de nosso povo; 
  • Se pensarem que devam corrigir a mudança que eu fiz, mãos a obra! 
  • Se como está, está bom, tudo bem também! 

Agradeço por terem lido! 

Outras curiosidades (lembradas oportunamente) por minha mãe: 
  1. Na primeira Procissão de Encontro daqui de Pé de Serra, os homens vieram de paletó e gravata, tamanho o valor que deram a tal evento. 
  2. Ela alcançou o “Canto da Verônica” ser cantado 09 (nove) vezes durante uma Procissão de Encontro; 

Notas: 
¹Copiei a letra da internet e alterei partes para ficar como tal. O “Canto da Verônica” pode ser pesquisado hoje na internet e encontra-se várias versões e significados; uma das opções que vi mais semelhanças na letra do que usamos e de onde copiei a letra, encontra-se  no link,
²Com erros de concordância verbal visando manter a melodia mais parecida possível com a original.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

"Dar a lição", “repetir a lição” e "passar da lição"

Quando eu estudei o primário escolar, usava-se os termos "dar a lição", “repetir a lição” e "passar da lição".
O "dar a lição" era a tarefa diária de fazer a leitura de um texto (do livro de Língua Portuguesa) em voz alta, ou para a professora ou para a classe. Caso essa leitura atingisse um bom nível de pronúncia e pontuação, se "passava da lição" e no dia seguinte o texto a ser lido seria o próximo pela ordem do livro. Mas quando a leitura era ruim, insatisfatória, o aluno teria que “repetir a lição” até conseguir fazer a mais correta leitura do texto em questão.
E quando se lia todas as leituras antes do final do ano letivo, poderia “recordar o livro”! Repetir as lições, aprender ainda mais e fixar conhecimentos.

Então, assim é a vida:
As lições são as situações que vivenciamos nas quais devemos aprender algo. Mas algumas vezes nos perguntamos: “Isso de novo, porque? ”
Enquanto não aprendermos uma lição continuaremos a repeti-la, o que nos impede de passarmos para a próxima e assim ficamos parados na nossa evolução pessoal.
E algumas pessoas nem conseguem “recordar”: lembrar do passado com o olhar de quem aprendeu e que pode reforçar o aprendizado...

Então vamos nos esforçar para “dar a lição”, “passar da lição” e quem sabe “recordar” o livro da vida!

Anita Garibalde Ramos Carneiro

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O homem e a pedra X a mulher e a cobra

Recebi essa imagem em um grupo de WhatsApp com a seguinte explicação:


Nesta cena o homem não pode ver a cobra mordendo a mulher e a mulher não consegue ver a pedra em cima do homem!! Sabe o que isto significa? Nem sempre conseguimos ver a dor que o outro está sofrendo, e ele nem sempre consegue entender a pressão que sentimos no dia-a-dia. Precisamos exercitar mais a compreensão, nos comunicar melhor, falar das nossas fraquezas, ouvir sobre as fraquezas do outro, entender os problemas as limitações e ter mais empatia para entender que embora a pessoa não esteja fazendo tudo que esperamos, não quer dizer que ela não esteja fazendo o melhor que ela pode.


Tal conteúdo toucou-me e eu o arquivei. Como corriqueiramente vivo e observo situações como à apresentada nessa imagem, resolvi escrever e publicar a respeito...

Todos nós vivemos ocasiões que nos induzem sofrimentos e nos relacionamos com pessoas que também estão sofrendo. Algumas dessas “relações de sofrimento” envolvem situações sem ligação alguma com o que cada envolvido está vivenciando. 
E por não dialogarem sobre o que vivenciam, terminam por agredirem-se mutuamente provocando ainda mais sofrimento, o que faz com que relacionamentos saudáveis e sólidos, adoeçam, estremeçam e até se modifiquem em sua essência.

Penso que devemos ao menos tentar entender que quando alguém nos causa sofrimento geralmente também está sofrendo e assim buscarmos evitar a condenação desse outro; sim, a condenação, porque em um julgamento há a conclusão que inocenta ou condena...
Isso é preocupação com o outro em detrimento de si?
Depende de como isso é pensado e vivido. Por vezes entender ou aceitar o outro, nos traz algo que só está em nós e é imprescindível para vivermos em paz com nós mesmos: o perdão; é preciso que eu perdoe o que o outro faz, propositalmente ou não, que “me atinge” para que eu evite que isso “me afete”. 

Em alguns casos o mero “ignorar” o outro funciona. Mas quando há uma carga sentimental envolvida e essa “ignorância” implica em transformar e/ou anular sentimentos, é necessário um trabalho (senti)mental que quase sempre é necessário ajuda e muitas vezes auxilio profissional. 

É necessário entender-se e aceitar o outro com o perdão do que ele é e faz se quisermos PAZ! (Até rima...)

Anita Garibalde Ramos Carneiro

Também publicado em Nota na Minha Página no Facebook.