A Tradição do Juda(s) de Pé de Serra
Conheço bons materiais sobre esse tema e eu vou tentar fazer um consolidado deles acrescentando conhecimentos e memórias pessoais. Os documentos a que me refiro são:
- HISTÓRIA DO JUDAS, Conceição Adorno, 2006;
- FESTEJOS SAGRADOS E DIVERSÕES PROFANAS: A QUEIMA DE JUDAS EM PÉ DE SERRA - BA (1945 - 1996), Liliane Lima da Silva, 2013, UNEB - Trabalho de Conclusão de Curso Acadêmico - TCC (Que ganhei da autora na época, arquivei e só a pouco tempo encontrei, reli e decidir escrever sobre o tema... risos);
- Documentário CARETA CADÊ A GUETA, A QUEIMA DE UM TRAIDOR, Adriel Pereira de Souza, Albertina Oliveira Santos, Ana Carolina Almeida de Oliveira, Luiz Carlos Cordeiro de Freitas Neto, 2018, UNEF - TCC;
- Documentário CARETA CADÊ A GUÊTA?, Veridiano Silva Lima, 2024.
Algumas datas e informações diferem entre eles, e eu escolhi citar as mais antigas dentre as apresentadas;
→ É uma Cultura importada, foi imitada de outras localidades (que já deixaram de fazer);
→ O 1º Juda foi em 1934 – ideia de Gaspar (que viajava muito) e Tavinho (fundador da Lira 6 de agosto);
♦Feito de madeira e pano velho, poucas bombas, pendurado numa haste e aceso manualmente;
→ Em 1945, foi a grande mudança:
♦1º Juda feito por Antonio Pereira Adorno – Fogueteiro acompanhado de seu pai; foram buscá-lo em Tanquinho – BA – Ideia de Roque Carneiro Rios conhecido como Léo esposo de Dona Zizi.
♦1ª Lavagem: o Juda foi levado pelas principais ruas acompanhado das “Caretas” e embalados pelos Sambas de Lavagem tocados pela Lira 06 de agosto;
♦Também teve testamento e show pirotécnico antes da queima do boneco como já era costume em outras localidades.
→ A Queima do Juda sempre acontece(u) na noite do Sábado de Aleluia, por volta de 00:00h, sempre depois do término das atividades realizadas pela Igreja Católica. Teve uma época que havia até Leilão depois da celebração fosse, reza, vigília pascal celebração da palavra ou presidida pelo padre;
→ No começo o mesmo boneco que saía na lavagem era queimado a noite! Só depois de algum tempo, foi pensado no peso e nos perigos e começou a fazer- se 02 bonecos: 01 “puro” e 01 “cheio” rs
A Família Adorno de Pé de Serra constituída e liderada por Antonio Fogueteiro desde 1947 sempre esteve à frente da organização e da pirotecnia da festa. Com o falecimento de Seu Antonio em 1993, os filhos assumiram o ofício. Tradição que fez uma Família numerosa e imprescindível para esse elemento cultural identitário pé-de-serrense.
A festa era ligada à Igreja Católica e organizada pela Comissão da Festa de Bom Jesus até 1985.
Era patrocinada (custeada) pelo povo: comerciantes, fazendeiros, trabalhadores rurais, todos eram incitados a contribuir para que a festa fosse realizada com sucesso;
Em 1986, já tínhamos Prefeitura em Pé de Serra e essa assumiu a promoção da festa.
Uma maior notabilidade desta festa, veio durante a década de 90, graças a evolução dos meios de comunicação: notícia que vinha e ia com maior facilidade fez com que a festa se tornasse mais conhecida e o número de turistas foi crescendo gradativamente como até então.
O costume de se fazer um boneco Judas (no Brasil), surgiu entre pessoas que se diziam católicos e intencionavam “vingar” a entrega de Jesus para a morte por Judas Iscariotes, Apóstolo de Cristo. Faziam um boneco de material inflamável, penduravam em local público, e no Sábado de Aleluia, saindo do silêncio pelo respeito à Morte de Jesus, esse boneco era “malhado” (rasgado, batido...) e queimado. Judas era a personificação do mal a ser eliminado do mundo de forma violenta. Assim ainda havia (ou há?) um outro costume de atribuir nomes de personalidades de má reputação ou aprovação pública negativa e isso ainda era utilizado na tal extinção do boneco do Judas.
Por conta disso, alguns padres da paróquia de Riachão do Jacuípe da qual Pé de Serra fazia parte, intencionaram combater e lutar para revogar a festa do Juda: desconhecimento, medo, e preconceitos alimentados por pé-de-serrenses com ideias iguais as dos padres. Mas a tradição já estava consolidada, bem como houve católicos mais esclarecidos que defenderam a festa do Juda de Pé de Serra e ela está aí como conhecemos!
Eu penso que aqui em Pé de Serra, só existe o "Juda": um boneco que passeia durante a tarde acompanhado de música e fantasia e a noite é parte de um show pirotécnico de excelência e único na região, quiçá na Bahia e no Brasil!
E o que são as (os) “Caretas”?
Na pesquisa de Liliane, ela descobriu que “no século XIX, se usava máscaras em cortejos cívicos e religiosos, porém leis eclesiásticas proibiam este costume, a única exceção para usá-las em festa religiosa era no sábado de aleluia” (Couto 2004) o que corrobora que esse tipo de manifestação era de fato ligada a católicos que achavam na vivência ou no desconhecimento da fé, motivos para diversão.
Aqui em Pé de Serra essa cultura veio junto com o Judas de Antonio Fogueteiro (risos);
Como divertir-se por trás de máscaras traz o conforto do anonimato, nasceu o bordão “Careta", cadê a gueta?” e haja “pirata” (chicote) e carreira com quem até hoje grite o comando provocativo!
Apenas homens eram "Caretas": vestidos com roupas femininas, o rosto coberto com o que se conseguisse: papelão, pedaços de pano, e, a indispensável pirata!
Só os "Caretas" se destacavam no meio do povo que acompanhava e vivia a folia na Lavagem do Judas!
Até que no início da década de 90, um pé-de-serrense descolado, resolveu sair na Lavagem do Juda sem máscara, apenas vestido de mulher (travestido), brincando e soltando beijos para seus amigos: Mario Clerton, filho de Ezequiel Cordeiro (Zica); há registros no canal do youtube WALTER PÉ DE SERRA do ano 1994 em que é possível avistar Clerton no meio do povo trazendo sua amiga Dona Neraci de quem segundo soube, era o look que ele vestia na festa: roupas que ela já havia usado nas Lavagens de Bom Jesus! E sempre que Clerton vinha para a Lavagem do Juda, brincava travestido e inseria outros amigos nesse costume.
Eis que em 2003, Gerimário Cordeiro (in memoriam), irmão de Leda Rios, criou o Bloco As Periguetes, com fantasias femininas (temáticas) para homens usaram e se divertirem com irreverência e isso foi aumentando os foliões homens que se fantasiavam sem ser de “Careta” para brincar a Lavagem do Juda. Gerimário seguiu com o bloco enquanto viveu fisicamente e hoje (o bloco) é mantido por sua família (esposa, filha, irmãs, irmãos...) que o fazem também como tributo ao seu idealizador.
Aproximadamente entre 2006 e 2010, anos iniciais de existência atuante do Grupo Cultural Mãe Mãe D’Ouro, por uma ideia de Joce Araujo, nós do grupo, fomos para Lavagem do Juda com fantasias livres e incentivamos amigos e conhecidos a fazerem o mesmo, levando mulheres e crianças, agregando mais cor e diversidade de estilos de foliãs e foliões à Lavagem do Juda; isso foi adotado pela população como é nos dias de hoje.
Ah! Mas isso é a PASCOARETA!
Bem... Até 1998 a Festa da Páscoa em Pé de Serra era somente a Lavagem e a Queima do Juda. Sem festa com bandas... Nem nos clubes particulares que já existiu por aqui havia festas com frequência; algumas vezes tentou-se; mas a Queima do Juda terminava tarde, por vezes 1h ou 2h da madrugada, e assim era prejuízo fazer festa para pagantes.
Nessa época, já aconteciam festas com bandas na praça (quadra) em São João..., mas na páscoa a quadra era o palco da Queima do Juda.
Então outro pé-de-serrense festeiro, Carlos Alberto Rios, Miinho de Piroquinha (in memoriam), resolveu que ia ter festa com banda na praça de Pé de Serra no Sábado de Aleluia sim!
Como realizar a festa na quadra era inviável, ele decidiu e fez a festa com trio elétrico, como uma micareta. Criou um bloco com camisetas pagas (Desejo), e inventou o termo PASCOARETA!
Durante algum tempo, a Pascoareta e a Festa do Juda de Pé de Serra, eram termos usados separadamente, inclusive no TCC de Liliane (2013) ela nem cita o termo Pascoareta. Mas a partir de 2015, aproximadamente, foi se
chamando tudo de Pascoareta para facilitar a divulgação dos festejos e o
convite aos visitantes; no TCC de Ana Carolina e colegas (2018) o termo Pascoareta
já é muito utilizado. Então a Festa do Juda e a Pascoareta nasceram separados
por mais de 40 anos, e depois foram unificados pelo povo!
Ainda acrescentam como parte da Pascoareta o costume da Trilha de subida da Serra do Leão, que originou do hábito católico de subir montes na Sexta-feira da Paixão como forma de sacrifício, oração e reflexão sobre a Paixão e Morte de Jesus Cristo. Os que fazem a trilha apenas por tradição e diversão, já aproveitam o momento para comentar sobre e se programar para a Festa do Juda!
Uffa!
Condensei? Sempre me pedem textos sobre essa festa e até entrevistas já dei, mas faltava escrever... (riso)
O que me falta são registros fotográficos antigos… Vivi pouco a Lavagem do Juda até o início de minha vida adulta... Era muito envolta com minha família na parte católica da época e isso tomava nosso tempo.
Ah! Mas ouvir atentamente o Testamento e assistir à Queima do Juda, na torre da Igreja, escondidos no escuro, era nossa recompensa em família pelo empenho e vivência da Quaresma e Semana Santa que meus pais Nininho e Meri (ambos in memoriam) nos proporcionavam! Ê saudade deles...
VIVA a Lavagem e Queima do Juda de Pé de Serra!
VIVA a Pascoareta de Pé de Serra!
VIVA a Cultura de Pé de Serra!
19 de março de 2026
FONTES: (disponibilizadas em pdf e links acessíveis:)
FESTEJOS SAGRADOS E DIVERSÕES PROFANAS: A QUEIMA DE JUDAS EM PÉ DE SERRA - BA (1945 - 1996), Liliane Lima da Silva, 2013, UNEB;
Documentário CARETA CADÊ A GUETA, A QUEIMA DE UM TRAIDOR. Adriel Pereira de Souza, Albertina Oliveira Santos, Ana Carolina Almeida de Oliveira, Luiz Carlos Cordeiro de Freitas Neto, 2018, UNEF;
Judas e Pascoareta - Cordel de Raphael Rios elemento do Documentário CARETA CADÊ A GUETA, A QUEIMA DE UM TRAIDOR, com edição de Ketlin Cerqueira como parte do Documentário Pé de Serra pelas memórias de Anita Garibalde;
Documentário CARETA CADÊ A GUÊTA?, Veridiano Silva Lima, 2024
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ResponderExcluirParabéns,Gabi. 👏🏾👏🏾👏🏾💥💥
ResponderExcluirMuito importante o seu registro escrito, embasado em pesquisas científicas e de fontes diversas. Só tem a agregar e engrandecer ainda mais a cultura de Pé de Serra.
Que registro mais que necessário para nossa cultura e identidade territorial ♥️
ResponderExcluirJoce Araujo, 19.03.26 - Uma pesquisadora e agente cultural de ímpar importância para nossa cultura!! Obrigada Gabi por ser esta fonte inspiradora!!
ResponderExcluirParabéns Gaby 👏🏽👏🏽👏🏽🥰 pelo seu trabalho lhe admiro muito,pela sua iniciativa e inteligência de criar esse registro da história da nossa cidade mostrando pra quem não sabe e não teve oportunidade de conhecer inclusive eu que moro em pé de Serra a 28anos e não sabia,fico muitíssimo feliz pela fonte de pesquisa que você representa em Pe de Serra.Só gratidão a você e minha filha Sara Monalisa agradece !!🙌🙌
ResponderExcluirGabi amei a história parabéns pela iniciativa de publica-la , ja participei e ainda participo da lavagem do Juda, e não sabia de muita coisa que você contou. Continue com essas histórias sobre Pé de Serra
ResponderExcluirConceição Acs
ResponderExcluirParabéns Gabi, excelente trabalho 👏🏽👏🏽👏🏽
ResponderExcluirBellus
ResponderExcluirParabéns amiga!...
Como sempre, você arrasa em tudo que faz. Informações importantes e valiosas sobre nossa cultura.
Te admiro muuuito!
Deus te abençoe sempre 🙏🏽
Parabéns Gabi, talvez só as pessoas mais velhas vão ler, mas no futuro os estudantes, irão precisar
ResponderExcluirGabi vc me fez voltar no tempo, como foi bom relembrar esses momentos inesquecíveis... Parabéns pelo seu lindo trabalho,Deus continue lhe capacitando ..
ResponderExcluirDayhane de Paula